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27/10/2020 às 00h52min - Atualizada em 27/10/2020 às 00h52min

RELATÓRIO INDICA QUE A MILÍCIA E O TRÁFICO INFLUENCIAM AS ELEIÇÕES EM 14 CIDADES DO RIO, INCLUÍNDO MARICÁ

Pesquisadores alertam para articulação de Milícias com Prefeituras e o Poder Legislativo na Região Metropolitana do RJ

by Editorial Maricá
Publicado em 26/10/2020 - 16:13 Por Cristina Indio do Brasil - Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro & AGÊNCIA O GLOBO
© Fernando Frazão/Agência Brasil

Levantamento é do Disque-Denúncia;

A milícia e o tráfico avançaram no Rio de Janeiro e influenciam a campanha eleitoral em 14 cidades do estado. É o que aponta um relatório do Disque-Denúncia baseado em denúncias recebidas, por meio de ligações recebidas pelo serviço, entre 27 de setembro, quando começou a campanha eleitoral, e o dia 13 deste mês, quando foram cadastradas 13 informações relacionadas a atuação de traficantes de drogas e 24 de milicianos. 

O município de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi o que registrou o maior número de denúncias. Lá foram nove, todas reportando a atuação de milícia. Ainda na Baixada Fluminense há relatos em Queimados, Belford Roxo, Duque de Caxias e São João de Meriti. Os outros municípios são Angra dos Reis, na Costa Verde; Itaguaí, Niterói, São Gonçalo, Maricá, na Região Metropolitana; Araruama, na Região dos Lagos; e São Fidélis, Natividade; no norte do estado.

Para o coordenador do Disque-Denúncia, Zeca Borges, o espalhamento das milícias e do tráfico no estado tem a ver também com a crise econômica, numa tentativa de aumentar a escala obter mais receita. "É muito difícil extorquir pessoas e vender drogas. Eles estão sentindo isso. Ao mesmo tempo, com essa eleição parece haver uma aliança tácita entre uma facção do Rio de Janeiro de traficantes e uma boa parte da milícia. Estão trabalhando juntos em vários territórios, então, nesse momento da eleição em que a disputa é por território, eles estão tentando mais expansão ainda e emplacar somente os seus candidatos”, observou em entrevista à Agência Brasil.

Zeca Borges disse que chamou atenção no levantamento o surgimento de candidatos do tráfico, o que era muito raro. “Estamos vendo traficantes e seus parentes sendo candidatos nesta eleição. Isso é, de certo modo, uma novidade. Temos também milicianos, mas com eles já havia este tipo de hábito. Nós temos hoje vários milicianos e seus familiares como candidatos também. Isso coloca em risco a democracia. É uma coisa um tanto perigosa, porque começa assim e a gente não sabe como vai parar”, apontou.

O relatório identificou a presença de candidatos integrantes da milícia. “Não obstante, chama atenção a quantidade de denúncias que informam sobre a candidatura dos próprios indivíduos que pertencem aos grupos de milícia. Nestes casos especificamente, os milicianos utilizam sua influência na comunidade e, através da realização de ameaças, buscam conseguir mais votos”, revelou.

Crimes

O coordenador acrescentou, que conforme monitoramento do Disque-Denúncia, há denúncias de crimes como desvio de material de candidatos adversários para garantir mais votos para os ligados à milícia e ao tráfico. Além disso, os moradores estão sendo ameaçados, caso os candidatos dos criminosos não sejam eleitos. “É uma forma cruel de tratar a nossa população do Rio de Janeiro, porque os mais pobres da região periférica pagam muito mais que os outros pelos serviços. Pagam o dobro, pagam água para a Cedae [Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro] e para a milícia ou para o tráfico, compram gás a preços extorsivos. Tudo muito difícil. Agora são fechados por barricadas. É muito complicada a vida desse pessoal”, completou.

As denúncias se referiram ainda a homicídios praticados no período desta campanha eleitoral, analisado no relatório. “Em determinadas ocasiões, integrantes da milícia planejam (ou realizam de fato) assassinatos, geralmente partindo de motivações meramente políticas, isto é, quando determinados candidatos, de alguma forma, causam interferências nas atividades ou nas ações da milícia”.

Aumento de denúncias

Apesar do medo, segundo Zeca Borges, as denúncias, que têm a garantia do sigilo, estão aumentando e a Polícia está atenta. Na visão do coordenador, a partir das informações, os órgãos de segurança podem atuar mais diretamente. “Nós temos muito mais denúncias e com a expansão aconteceu uma coisa curiosa. Os milicianos e os traficantes que eram muito locais, no caso dos traficantes os chamados cria, pessoas que são do lugar. Nessa eleição, não. É uma expansão tem pessoas do Chapadão em Paraty. Tem traficantes da Penha em Queimados. Então não há empatia e o cidadão se sente muito acuado e está denunciando bastante”. A secretaria de Polícia Civil recebeu todos os dossiês produzidos pelo Disque-Denúncia.

Território

Ainda no controle territorial armado no Rio de Janeiro, a Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos divulgou uma nota técnica, em sequência à pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Disque-Denúncia e as plataformas Fogo Cruzado e Pista News, que indicou a presença de milícia em mais de um quinto dos bairros do Grande Rio, publicada pela Agência Brasil na segunda-feira passada (19)

A nota aponta que “talvez essa expansão dos interesses milicianos por instâncias dos poderes legislativos locais guarde relação, ainda que parcialmente, com o elevado número de mortes violentas envolvendo candidatos a vereadores”. O documento ainda alertou que é imperativo monitorar esse fenômeno e buscar medidas para revertê-lo. “Se ele se confirma e se consolida, conforma-se um quadro de banditismo político, de grupos que, historicamente, começaram guardando relações com elites locais para, posteriormente, assumirem protagonismo tanto nas atividades econômicas quanto no poder político”.

Resposta

Em retorno à Agência Brasil, a Secretaria de Estado de Polícia Civil informou que, em menos de um mês de trabalhos da Força Tarefa que foi criada pela pasta para coibir este tipo de crime, foram realizados diversos serviços de inteligência, investigação e ação, resultando em operações complexas contra as milícias e as ações não tem prazo para terminar. “A estratégia é a união de prisões e asfixia, coibindo todas as práticas criminosas de entrada de dinheiro na organização criminosa.

Este planejamento resultou no fechamento de comércios, areais, shopping ligados a grupos criminosos, prisões, apreensões de fuzis, pistolas e veículos, fechamento de centrais de gatonet [TV a cabo clandestina] e de distribuidoras ilegais de gás, interrupção de várias construções irregulares e mortes de milicianos em confronto”, revelou.

Na última quinta-feira (22), durante uma operação em Itaguaí e Seropédica, foram presas 17 pessoas, entre elas o líder da milícia que atua em Chaperó, em Itaguaí. “Ele é braço-direito do miliciano Danilo Dias Lima, o Tandera. Na véspera, os agentes interditaram oito farmácias irregulares, apreenderam milhares de medicamentos de uso controlado entre outras substâncias e prenderam dez responsáveis pelos estabelecimentos. No dia 15, a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), em ação integrada com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), interceptou um comboio de 12 milicianos em Itaguaí.

O serviço de inteligência da força-tarefa que vinha monitorando o grupo, apurou a frequente movimentação de criminosos entre a Zona Oeste e a Baixada Fluminense. No confronto com os policiais, os criminosos reagiram e morreram. Naquela operação foram apreendidos pelo menos oito fuzis, além de diversas pistolas, munições, carregadores, aparelhos de comunicação e os quatro carros que faziam parte do comboio.

A reportagem da Agência Brasil entrou em contato com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio de Janeiro, mas até o fechamento da matéria não obteve resposta.
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Pesquisadores também afirmam que, durante o trabalho, foram colhidos relatos de que milicianos chegam a fundar associações de moradores para mobilizar a Defensoria Pública da União e assegurar o acesso de habitantes de comunidades a habitações do Minha Casa Minha Vida.

 

"O exemplo demonstra como essas organizações criminosas têm habilidade para transitar entre o legal e o ilegal e chama a atenção para um projeto ambicioso de tomada de poder do Estado", diz a nota técnica.

O estudo observa que as milícias se expandiram territorialmente nas últimas duas décadas, com discurso de antagonistas do tráfico de drogas e “protetores” de moradores de comunidades.

No entanto, o que se vê atualmente é uma espécie de simbiose entre milícia e narcotráfico, com a atuação de milicianos no varejo de entorpecentes.

Vasta atividade econômica

Aproveitando-se da sensação de insegurança de populações vulneráveis, eles acumularam poder político, econômico e social, controlando serviços essenciais como transporte e a distribuição de gás e TV a cabo.

Agiotagem, grilagem, loteamento de terrenos, construção e revenda irregular de habitação, assassinatos contratados, tráfico de armas, contrabando, roubo de cargas, receptação de mercadorias e revenda de produtos também fazem parte da economia política das milícias.

De acordo com a análise da rede, milicianos se caracterizam pela diversificação de suas atividades econômicas, o que lhes dá vantagem técnica sobre narcotraficantes na gestão dos negócios e no controle territorial.

Seminário virtual

A nota técnica “Controle Territorial Armado no Rio de Janeiro” será lançada oficialmente nesta segunda-feira (26), às 14h, durante o 1º Seminário da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança e Direitos — Milícias, grupos armados e disputas territoriais no Rio de Janeiro.

O evento terá transmissão ao vivo pelo YouTube. A mesa terá a participação dos pesquisadores João Trajano Sento-Sé, Marcelo Burgos, José Cláudio Sousa Alves e Claudio Ferraz. Os comentários serão de Jaqueline Muniz e Ana Paula Miranda.

O seminário terá ainda um último encontro na sexta-feira (30), às 14h, com o tema “O Fenômeno das Milícias no Rio e em outros estados brasileiros”. A mesa virtual será formada por Rafael Soares, Bruno Paes Manso, Aiala Colares Couto e Carolina Grillo, com comentários de Paulo Baía, Pablo Nunes e Paula Poncioni.

PM se pronuncia

Em nota a PM afirmou que o estudo está "expondo conclusões sem consistência técnica, sem base legal e, portanto, sem conexão com a realidade". "A ilação de que facções de milícias estariam influenciando a escolha de comandantes de unidades operacionais da Polícia Militar do Rio de Janeiro é, no mínimo, irresponsável", diz texto divulgado pela corporação. A PM disse ainda que toda a cadeia de comando da Polícia Militar tem sido montada a partir de critérios técnicos.

Em relação às milícias, a Polícia Militar diz que "tem atuado em apoio à Polícia Civil e ao Ministério Público em operações contra essas facções em todo o território estadual". "Quando há suspeita de alguma participação de policiais militares com esses grupos, a Corregedoria da Corporação é acionada, não só para auxiliar nas investigações como no cumprimento dos mandados de prisão e busca e apreensão", diz ainda a nota da PM.


Veja a reportagem no Bom Dia Rio neste link a seguir: https://globoplay.globo.com/v/8969473/


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